O Sr. Rocco Alimonti nasceu na Itália há 77 anos, mas vive no Brasil desde a década de 50. Atualmente ele é proprietário da Alimonti comercial e Construtora Ltda. localizada no bairro da Vila Mariana, em São Paulo.
O Sr. Rocco Alimonti nasceu na Itália há 77 anos, mas vive no Brasil desde a década de 50. Atualmente ele é proprietário da Alimonti comercial e Construtora Ltda. localizada no bairro da Vila Mariana, em São Paulo.
O Sr. Rocco participou da equipe de mestres e profissionais que trabalharam na construção dos grandes edifícios que marcaram as primeiras décadas da segunda metade do século XX, na cidade de São Paulo, tais como o edifício sede do Banco do Brasil, do Banco do Estado de São Paulo e do Edifício Itália.
Atuando na estrutura atual a Alimonti Comercial possui mais de 20 anos no mercado. A empresa é especializada na construção de edifícios residenciais, comerciais e condomínios horizontais, de médio e alto padrão de acabamento, dotados, em sua grande maioria, de requintes arquitetônicos que exigem de sua equipe de trabalho uma constante e permanente dedicação.
Responsável pela entrega de inúmeros empreendimentos ao lado de outros em processo de execução, num total superior a oitocentos mil metros quadrados de área construída, a empresa tem sua presença marcada, como construtora, incorporadora e empreiteira, em diferentes regiões da Grande São Paulo e litoral do Estado.
Sendo mais um caso de empreendedor bem sucedido sem ter recebido a devida educação formal, Sr. Rocco conta que estudou apenas até o terceiro ano primário, tendo mais tarde completado o quarto ano no período noturno. Porém ele alega que isso não atrapalhou sua trajetória vencedora, citando que a determinação pode valer mais que o diploma em alguns casos. Ele inclusive se referiu a um amigo para ilustrar o caso:
“Lembro da história de um judeu, Calfat, que começou a vida no Brasil da mesma forma que eu, sem nada. Vendia tecidos de porta em porta, começou a crescer. Depois dos tecidos, fabricava roupas, lençóis, chegava a encher um avião para exportar para Alemanha. Quando os filhos, que tinham estudo, começaram a gerir a empresa, ela faliu.”
Sua inspiração para empreender e a vocação para o ramo da construção vieram da família que já tinha a profissão de construtor no sangue como conta. Seu pai e seu avô moravam em uma pequena cidade turística da Itália, onde os próprios moradores costumavam construir suas residências, eram casas feitas de pedra e a família foi especializando-se na construção.
“As pessoas compravam terrenos na região e entregavam a obra em nossas mãos.”
Sem ter um planejamento formal, Sr. Rocco já sonhava em ter o negócio próprio há pelo menos 10 anos antes de embarcar para o Brasil. E aquilo era algo que com o tempo ia crescendo.
“O que eu tinha era uma vontade e determinação muito fortes. Já alimentava esse objetivo há pelo menos 10 anos antes de vir para o Brasil. Era algo que ia crescendo aos poucos. Assim como uma máquina fotográfica – quanto mais se aproximava, mais a imagem ia crescendo na minha cabeça. Para mim, querer é poder. Não existe “eu não vou fazer porque não consigo ou não tenho sorte”, eu simplesmente vou e faço. Se obstáculos aparecem eu procuro solucioná-los o mais rápido e da melhor maneira possível. Não podemos perder tempo. E estou sempre buscando melhorar, faço sempre o máximo para me superar”.
Sr. Rocco conta que a idéia inicial era abrir uma fábrica de cerâmica, pois já havia trabalhado no ramo na Itália por 5 anos e já sabia como lidar com o material, assim era só se adaptar à realidade brasileira.
A experiência na construção com a família e na cerâmica eram suas únicas experiências de trabalho até então. Mas a época era de pós-guerra na Itália, então Sr. Rocco após servir o exército ficou mais um ano por lá e decidiu como 70% dos jovens da época se aventurar em outro país:
“Tive que buscar oportunidades de trabalho em outro país. Os destinos mais comuns eram Estados Unidos, Argentina, Canadá e Brasil. Quando fui ao consulado para preparar meus documentos de embarque, comecei a folhear livros sobre o Brasil e me simpatizei pela geografia e clima da região. Na verdade, a idéia original era trabalhar por um tempo por aqui e retornar após uns 5 a 7 anos. Porém, do Brasil nunca mais sai, com exceção de algumas viagens a passeio.”
Logo que chegou ao Brasil Sr.Rocco foi morar em uma pensão de italianos e, passados apenas dois dias, período em que precisou para regularizar os documentos no país, já começou a trabalhar em construções como mestre-de-obras. Como se dedicava muito, logo começou a se sobressair, ganhando as vezes até mais que o engenheiro, pois estava sempre buscando diversas atividades para fazer.
“Na verdade, meu capital inicial, quando cheguei ao Brasil era US$18,00, um terno e três camisas. Porém, logo depois que comecei a trabalhar, lembro que já consegui enviar algum dinheiro para minha família na Itália.”
Sr. Rocco conta que, seu primeiro emprego foi como mestre-de-obras, em um empreendimento do Banco do Brasil, no centro da cidade. Mesmo falando muito pouco a língua do país, após um ano de trabalho ele já havia conseguido registrar uma firma e começar a trabalhar por conta própria. Mas a experiência de empregado no Brasil logo se acabou para Sr. Rocco, em menos de um ano ele já abriu uma firma própria e começou a aceitar projetos. No começo ele ficou um pouco inseguro mais pela dificuldade com o idioma do que por não acreditar em sua capacidade.
A princípio a idéia era montar a fábrica de cerâmica, pois na época existia apenas uma que pertencia aos Matarazzo. Sr. Rocco até chegou a ir a Caieiras ver um terreno, mas esbarrou no alto capital necessário.
Foi aí que aquilo que alguns chamam de sorte, mas que não se passa do encontro da competência com a oportunidade aconteceu como relata o próprio Sr. Rocco.
“Encontrei a pessoa que me ajudou a dar o primeiro passo mais concreto para idealizar meu sonho dentro de um bonde. Seu nome era Flávio, filho de italianos que tinha uma empresa de engenharia junto com o tio no centro da cidade. Seu pai também era empreendedor e vivia nos Estados Unidos. Na época, eu estava trabalhando na reforma de uma pequena loja. Ele me propôs que eu iniciasse com a construção de três prédios na Rua Mário Ferraz. Era um salto bastante grande. Disse que se eu me saísse bem, ele delegaria todos os próximos projetos para minha execução, pois não queriam mais lidar com este tipo de trabalho. Pediu que eu escolhesse a equipe que iria trabalhar comigo – ele não iria se envolver com nada.”
Após uma parada para conversar em uma padaria, o rapaz foi logo solicitando que ele comparecesse ao seu escritório para que lhe fossem passadas as coordenadas de sua primeira empreitada de grande porte. Disse ainda que não se preocupasse com a língua: “Use gestos e o seu sistema e vá em frente”
”O primeiro cliente significativo foi realmente o filho de italianos que me passou o empreendimento da Rua Mário Ferraz. Tinha 23 anos na época. Comecei aos poucos, nos primeiros prédios só fazia a parte de alvenaria e revestimento e depois comecei a pegar a parte da estrutura. Passo a passo, fui crescendo, chegando a ter de 200 a 300 funcionários sob meu comando. E era eu sozinho, tendo que administrar tudo.”
Os donos da empresa haviam assumido um preço fechado para a construção dos três empreendimentos na Mário Ferraz. Já haviam delegado o projeto para outro construtor, que não tinha obtido sucesso e a obra estava parada.
Nessa empreitada foi necessário que Sr. Rocco acreditasse em seu faro empreendedor e aceitasse correr riscos. Ele combinou receber os pagamentos por quinzena após uma medição dos progressos, entretanto seus funcionários receberiam por semana. Isso gerou certa inquietação, pois seriam 50 funcionários por obra, 150 ao todo para serem administrados. O empreendedor decidiu então conversar com um amigo engenheiro de projetos.
Ainda hoje Sr. Rocco recorda dessa conversa: “Escuta, o Dr. Flávio quer que eu faça os prédios, mas eu não tenho capital para tocar, é difícil garantir que a obra vai andar de acordo com o cronograma previsto”. E a resposta encorajadora foi para que ele não se preocupasse, apenas realizasse o trabalho como sabia.
Foi essa grande confiança deposita da no Sr. Rocco que fez que ele não frustrasse as expectativas dos primeiros parceiros, o que abriu muitas portas para o futuro. Com a parceria vieram muitos novos negócios e foi preciso trabalhar duro. Era preciso levantar às 5 da manhã para ser o primeiro a chegar à obra, e a noite ser o último a sair para deixar tudo perfeito esperando a fiscalização do engenheiro na manhã seguinte.
A grande dedicação ao trabalho afetou a vida familiar e sempre gerou muitas reclamações. No início, quando acumulava muitos projetos as vezes Sr. Rocco nem voltava para casa. Isso gerava grande descontentamento em sua esposa, que como não tinha telefone não era avisada e passava a noite aguardando-o ansiosamente no portão.
Sr. Rocco também se gaba de nunca ter tirado férias, ele conta que um dos poucos períodos de descanso foi quando ficou doente e decidiu passar três meses viajando pela Itália com a família. A qual é motivo de grande orgulho para ele.
“Dou graças a Deus, pois tenho uma ótima família - um homem não se realiza se não tiver uma boa esposa e filhos que o ajudam na administração do negócio. Todos querem que agora eu descanse um pouco, pare de trabalhar, mas não consigo ficar longe do negócio.”
A partir dos anos 60 ele decidiu formar a primeira das empresas nas quais ao longo de mais de 40 anos passou a desenvolver seu trabalho empreendedor, em conjunto com uma equipe que se mantém fiel por muitos anos.
Porém nem tudo foi perfeito após a primeira empresa. Diversas dificuldades financeiras ocorreram no caminho do sucesso e o Sr. Rocco as combateu com um lema que aprendeu com seu pai e seu avô: “Nunca pegue empréstimos de longo prazo em banco”. Ele revela inclusive uma maneira bastante peculiar de gerenciar suas contas no início, mas que com o crescimento do negócio precisou ser adaptada.
“No início, sempre guardava o dinheiro de três meses para pagar os funcionários da obra – fazia questão de ter essa quantia garantida, no caso de necessidade, para pagar custos de demissão. Na época, carregava o dinheiro em malas, não ficava no banco. Até hoje apenas recorro a terceiros para capital de giro e somente em casos estritamente necessários. Prefiro trabalhar com capital próprio.”
Como muitos empreendedores Sr. Rocco também enfrentou problemas com sociedades:
“Após alguns anos de muito trabalho sozinho, comecei a sentir o cansaço e ter problemas de saúde. Não me alimentava direito, dormia pouco – durante a noite, ficava pensando em tudo o que teria que fazer no dia seguinte no trabalho. Nesta época, após inúmeras reclamações de minha esposa, resolvi arranjar um sócio para dividir a responsabilidade. Foi também pelo fato de haver uma nova exigência legal: a firma de construção tinha que ter um engenheiro responsável. Para montar a sociedade foi muito fácil e rápido – levou apenas 2 meses. Disse ao meu sócio que ele, na verdade, não precisava trazer nada, ele já tinha toda a estrutura montada. Foi aberto então um escritório bem maior que o que tinha na época, na Mooca, com 8 salas (anteriormente possuía um pequeno escritório na Liberdade)”.
A sociedade não deu certo. O escritório começou a inchar com muitos funcionários que não faziam muita coisa: um trazia o genro, o outro o filho, a namorada do filho e assim por diante. Poucos realmente se dedicavam à empresa com afinco como eu. Decidi então por terminar a sociedade, mas com a burocracia existente no Brasil, levou 12 anos para eu conseguir fechar essa firma. Hoje em dia eu faço algumas sociedades com incorporadoras, mas somente para projetos específicos – não para minha empresa. Prefiro trabalhar sozinho, com minha família. Tenho dois filhos que estão comigo desde pequenos, um deles é engenheiro”.
O momento mais crítico no entanto ocorreu na época do presidente Collor, quando o mercado estagnou. Isso afetou diretamente a empresa e foi preciso reduzi-la radicalmente, ficando apenas com quatro ou cinco funcionários. Mas como não podia deixar de ser com alguém tão perseverante o Sr. Rocco não se abateu e começou a reerguer a empresa aos poucos, como ele conta a seguir:
“Voltei a lembrar dos meus primeiros tempos, em que deixava guardado apenas o salário de três meses do pessoal da obra. Na época, tinha uma reserva na pessoa física e quis usá-la para crescer de novo. Meu filho, Américo, se opôs radicalmente em usar o pouco que tinha guardado com o fruto de meu suor para dar aos operários. Mas eu raspei o tacho e comecei tudo de novo. Só peguei empréstimo mesmo na época de pagar o 13o, pois não tinha os recursos. Mais uma vez, minha determinação de não entrar em dívidas prevaleceu. Cresci novamente assim que a economia se recuperou.”
A empresa conta hoje com aproximadamente 180 funcionários diretos e, em época de plena produção, chega a um total de 300 funcionários, entre diretos e indiretos. Seu faturamento anual é bastante razoável para alguém que chegou ao Brasil com US$18,00 no bolso.
E não pense que a idade avançada e o negócio estabelecido acomodaram esse empreendedor. Bastante centralizador, ele é totalmente comprometido com o que faz, gosta de estar envolvido no dia-a-dia do negócio. Conta que, recentemente, foi verificar uma obra e viu que a maneira com que o projeto estava sendo desenvolvido não estava correta. Pediu o projeto ao engenheiro, foi à obra bem cedo e ficou lá por algum tempo analisando – tempo suficiente para perceber o que estava errado e como deveriam fazer para corrigir.
Conversou com os funcionários e redirecionou o projeto. O mestre-de-obras virou para ele e disse: “Sr. Rocco, eu fico preocupado quando o senhor fica afastado por 4 ou 5 dias, tem tanta coisa para fazer e não há ninguém que diga: faça assim! Com o senhor aqui, o serviço anda, ficamos mais seguros”.
É fácil perceber que o senso de liderança é uma de suas características principais. Sua preocupação com a equipe de trabalho é muito grande – e a recíproca é verdadeira – ele é muito respeitado por seus funcionários. Conta que muitos deles começaram desde o início, já se casaram, tiveram filhos e netos e continuam lá, por quase 30 anos na empresa. Ele ajudou-os a construir suas casas. Confessa que isso é algo que dá muita segurança para desenvolver seu trabalho.
Mas o Sr. Rocco também sabe ser enérgico e demitir quando necessário. Uma vez lhe perguntaram como ele consegue trabalhar um, dois meses, com um engenheiro e logo depois demiti-lo. Disse que a primeira coisa que faz é pedir desculpas, depois manda embora.
“Aprendi que se a engrenagem não está funcionando direito, tem que tirar a peça que está prejudicando. A princípio, tento ensinar a maneira correta, se não dá certo, demito.”
O grande diferencial de seu negócio como conta o Sr. Rocco é a clientela fiel, conquistada com muitos anos de um trabalho diferenciado, como conta o empreendedor:
“Sempre procuro fazer o melhor, nunca estou satisfeito, procuro a perfeição. Quando comparo minhas obras com as da concorrência, consigo enxergar a diferença, nosso trabalho é diferenciado, tem mais qualidade. Um projeto bem feito é como uma árvore que dá frutos. O cliente que conhece o nosso trabalho vê a placa e vem atrás. Tanto é que nunca precisamos anunciar – a propaganda é feita sempre de boca em boca. Vivemos desta forma até hoje.”
Rocco Alimonti é acima de tudo apaixonado pelo que faz, tanto que nem a idade avançada e os problemas de saúde o fazem parar. Ele venceu a barreira da língua e liderou equipes que ajudaram a construir um legado que vai ficar por muitas gerações. Embora tenha iniciado sua carreira em um período onde havia mais oportunidades e a concorrência não era acirrada como nos dias de hoje, sem educação e planejamento formais, não podemos dizer que essa trilha de sucesso foi por mero acaso ou sorte, ou ainda, como o próprio Sr. Rocco - homem muito religioso – costuma dizer: “por força da providência divina”. Sem o talento, conhecimento e determinação do Sr. Rocco, esta história poderia ter sido bem diferente.
BATE-BOLA
Quais são suas forças e fraquezas?
“Acho que minha maior força é a determinação, nunca dizer que não posso ir em frente e vencer todos os obstáculos. Minha fraqueza é a minha saúde.”
Qual foi o momento de maior satisfação?
“Minha maior satisfação é quando o cliente elogia nosso trabalho, ver que o cliente ficou feliz, sei que isso é o que gera frutos no futuro. O cliente fica fiel“.
O senhor faria tudo de novo? Caso positivo, o que faria diferente?
“Com certeza faria tudo de novo. Talvez apenas resguardasse um pouco mais minha saúde. Como posso lamentar que Deus não me ajudou? Estou com 77 anos, comecei com 21 anos – estamos com bastante trabalho na empresa, com várias obras em andamento. Deus me deu tudo de bom, uma ótima família, muita saúde, boas amizades, embora os amigos sejam poucos, pois trabalho demais.“
Que conselhos o senhor daria a uma pessoa que quer se tornar um empreendedor?
“Acredite em si mesmo. Nunca diga que não pode fazer. Comece com passos lentos, sem querer abraçar o mundo. Nunca faça muitas dívidas, pois pode virar uma bola de neve. Essa é a estratégia pessoal que sempre segui“.
Esta entrevista foi realizada por Soraia Cristina Mendes em junho de 2005
*Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial sem a autorização do autor e/ou do entrevistado
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