Paulo Mannheimer, 37, é natural do Rio de Janeiro. Iniciou sua formação acadêmica estudando engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No início do terceiro ano resolveu mudar para informática, prestando outro vestibular e entrando no recém criado curso de informática da UFRJ na época.
Mais recentemente (1998) iniciou seu Master in Business Administration em Berkeley, na Universidade da Califórnia: "Ainda falta um semestre para eu completar este curso coloquei-o em "standby" por conta do Elefante". Seus hobbies prediletos são aviões (tem licença de piloto privado) e ler: "Sou um leitor compulsivo, leio uns 4 livros de cada vez. Gosto muito de calma, natureza, praia e montanha, não gosto de mediocridade e da resistência das pessoas em aprender. Me considero detalhista, exigente, criativo e sinto que tenho um senso muito apurado de estratégia, visão de produto e foco no usuário".
Talvez o fato de ter alguns casos de empreendedorismo na família, tenha colaborado para que Paulo se tornasse um. Seu avô por parte de pai sempre foi um empreendedor, tendo se mudado da Alemanha para o Brasil em busca de oportunidades no início do século 20. Já seu avô por parte de mãe acabou seguindo uma carreira empreendedora por circunstâncias do destino embora fosse um dos maiores advogados da Alemanha, foi impedido de trabalhar por conta de leis anti-semitas promulgadas na época. Veio então ao Brasil e passou a se dedicar ao comércio, inicialmente vendendo livros usados na porta da então Universidade do Brasil. Paulo acredita, entretanto, que a maior parte de seu espírito empreendedor venha de sua constante necessidade de estar procurando novos desafios.
Paulo começou a trabalhar cedo, com 15 anos, quando seu pai lhe arrumou um estágio de programação de computadores, onde teve a oportunidade de ter contato com aplicações comerciais da computação. Após este estágio, Paulo teve mais alguns outros e um único emprego, e logo após começou seu primeiro negócio. Mas tudo começou um pouco antes:
"Para falar a verdade, minha formação profissional começou aos 12 anos, quando em 1975, meu pai trouxe dos EUA um recém lançado microcomputador pessoal, com 4 Kbytes de memória (4.000 vezes menos que a maioria dos computadores possui hoje em dia) e uma linguagem de programação BASIC da Microsoft".
Aos 20 anos, Paulo fundou a Modulo Security Solutions, hoje uma das maiores empresas de segurança de dados do Brasil. Nessa época, adquiriu a experiência prática na área de marketing, cuidando da introdução de novos produtos e serviços. Ele se desligou da Módulo em 1996, em busca de novos desafios. Foi quando teve a idéia do Elefante.
Porém, um pouco antes do Elefante surgir, logo após se desligar da Módulo, Paulo passou um ano sabático estudando outras oportunidades. Esteve parte deste período nos Estados Unidos, onde os serviços gratuitos via Internet estavam começando a explodir. "Voltando ao Brasil, onde a Internet estava um pouco menos desenvolvida, percebi que havia uma oportunidade para serviços (entre eles uma agenda inteligente) que fizessem a Internet trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana, para as pessoas, e não vice-versa". E isto implicava em uma dedicação fora do comum ao negócio: "Como (quase) sempre fui um empreendedor, não tive grandes dificuldades em me adaptar a este estilo de vida". O primeiro serviço da empresa foi o de lembranças, para que as pessoas pudessem com facilidade registrar suas datas mais importantes e serem lembradas sempre que necessário. Tudo via e-mail. Depois vieram muitos outros serviços, frutos de idéias criativas...
"Lembro-me claramente de como surgiu a oportunidade. Ao ter a idéia do Elefante fiz uma pesquisa de mercado e não encontrei nada similar, mesmo nos Estados Unidos. Então metemos* a mão na massa e passamos a desenvolver o produto. Após três meses, quando de nosso lançamento, já havia surgido pelo menos umas 3 empresas similares por lá. Nosso diferencial competitivo sempre foi a tecnologia, a regionalização e o bom-humor do personagem. É incrível o que uma personalidade forte na Internet pode fazer."
* Paulo e seus sócios têm formação complementar, o que dá ao time um caráter multidisciplinar, agregando maior valor à gestão da empresa. Ele acredita que ter sócios é fundamental, pois ajuda a compartilhar os riscos, além de trazer expertises que somente os sócios possuem.
Uma importante constatação de Paulo confirma o que se estuda a respeito do empreendedorismo, de que a idéia isoladamente não leva ao sucesso. É preciso algo mais:
"Em tempos tão dinâmicos como os que estamos vivendo, as idéias na verdade representam apenas uma pequena parte da receita para o sucesso. Os itens fundamentais passam, então, a ser capital e pessoas. Graças às minhas experiências anteriores, eu tinha acesso a pessoas que considerava capazes de me ajudar nesta empreitada. Já o acesso ao capital foi, em parte, um dos motivos para minha ida à Califórnia para o MBA, pois eu pretendia tentar levantar capital de risco lá, na sua Meca, o Vale do Silício.
Desenvolvemos inicialmente apenas um plano de marketing, com vistas a nos ajudar a introduzir o produto no mercado. Fizemos algumas projeções sobre faturamento, com a estimativa por fontes de receita, mas apenas como exercício ("reality check"), pois sabíamos que a realidade seria bem diferente.
Depois, desenvolvemos nosso plano de negócios, mais como uma ferramenta para equalizar as expectativas e o foco de todos, do que propriamente um documento para levantar recursos."
Da idéia ao lançamento do Elefante foram 4 meses. Segundo Paulo, a parte mais difícil foi manter o foco das pessoas: "Em um ambiente tão mutável como a Internet, as oportunidades para novos empreendimentos e idéias acontecem pelo menos 2 vezes por dia. O mais difícil é, então, manter o foco de todo o time na realização daquilo que precisamos realizar, sem nos perdermos no meio do caminho com oportunidades que, embora boas, não nos dizem respeito naquele momento".
Hoje, a empresa pode ser considerada um dos poucos casos de sucesso na Internet brasileira. Os resultados estão cada vez mais animadores, e o equilíbrio de receita e despesa ("break-even") está próximo. "Esperamos atingir este equilíbrio já no primeiro trimestre de 2001. Em 2000 faturamos 10 vezes mais do que faturamos em 1999, e pretendemos continuar neste ritmo pelo menos nos próximos 2 anos".
Para que a empresa sustentasse esse crescimento exemplar, houve duas rodadas de investimento, com aporte de capital de risco no negócio. A primeira foi em Setembro de 1999, do site Submarino.com. A segunda foi em Janeiro de 2000 do GP (o maior fundo de investimentos do Brasil) e do Warburg, Pincus (um dos maiores fundos dos EUA). Todos os investidores continuam no negócio. Com o investimento realizado, eles hoje possuem 44% da empresa, ficando os 56% restantes nas mãos dos fundadores. Os investidores contribuem em muito para o sucesso da empresa, trazendo contatos ("networking"), expertise da indústria, novas idéias e muito profissionalismo. A empresa ainda se utiliza do trabalho de duas consultorias internacionais, que os ajudaram na formulação da estratégia de negócio e da estratégia de produto.
Algumas perguntas (bate bola) e as respostas de Paulo.
Os momentos mais difíceis:
Crescer a passos acelerados nunca é fácil. Uma empresa que passa por isso se sente um pouco como um adolescente, em constante crise de identidade a respeito do que é capaz de fazer. Os momentos mais difíceis estão relacionados a tomadas de decisão estratégicas, onde você precisa pensar muito bem e decidir se já é grande o suficiente para dar mais aquele passo uma decisão errada neste momento pode fazer você dar um passo grande demais, ou perder uma grande oportunidade. Durma-se com um barulho desses!
Se esperava atingir o sucesso que conseguiu:
Nunca tive dúvidas! Quando me desliguei da Módulo, um grande amigo meu veio me aconselhar a fazer um concurso público. Não que eu tenha nada contra ser servidor (acho que isso é meramente uma questão de estilo pessoal), mas me recusei a considerar a hipótese de somente ter um salário fixo me esperando a cada final de mês acreditava (e ainda acredito) que tenho uma necessidade interior por desafios.
Tempo de dedicação ao negócio:
Gasto mais ou menos o mesmo tempo de dedicação ao negócio, que gastava no início, algo como 15 horas diárias e alguns finais de semana.
Leituras, sites de internet, informação:
Leio muito todos os jornais on-line, livros sobre negócios de uma maneira geral, e costumo visitar pelo menos uma vez por semana uma lista de sites de empresas que de alguma forma estão no mesmo ramo e/ou indústria que a gente (é sempre bom ver para onde sopra o vento).
Empreendedor X Gerente:
Minha inclinação sempre foi empreendedora, acho até que gerenciar não é meu ponto forte. Acredito que minha maior capacidade seja identificar oportunidades e vender a visão destas oportunidades para o restante da empresa.
Quanto a se atualizar, fazer cursos/treinamentos etc:
Manter-se atualizado é fundamental foi um dos motivos que me levou a fazer o MBA em Berkeley. Em particular, este curso me ensinou o "american way of doing business on the Internet", fundamental para maximizar as oportunidades que aparecem para o Elefante.
Seus planos e de sua empresa para o futuro:
Continuaremos expandindo nossa base de usuários e serviços, seja aqui no Brasil e na América Latina. Estamos também preparando novas características inéditas do produto, que "alavancarão" ainda mais o sucesso do Elefante.
Seus planos de aposentadoria, descansar e sair do dia a dia empresarial:
Não tenho planos para isso, mas tenho um sonho de um dia dar a volta ao mundo em um avião anfíbio. É o que eu chamo de "projeto Catalina" (Catalina é o nome de um excelente avião anfíbio). Tenho certeza que irei realizar mais este sonho.
O papel da família para o sucesso empreendedor:
As grandes heroínas de todas estas aventuras são sem dúvida minha esposa Elida e minha filha Isabel. A Elida foi capaz de abrir mão temporariamente de sua vida profissional aqui no Brasil, acreditando que o MBA contribuiria fundamentalmente para minha formação profissional e para o meu negocio. Já a Isabel foi capaz de "encarar" a escolinha nos EUA sem saber uma palavra de inglês, sem dúvida um feito que merece todo o meu amor.
O que se aprende com o sucesso e com o fracasso:
Aprendi que o sucesso vem à custa de muito suor e trabalho, e que o fracasso é uma sombra que nos acompanha a cada dia. O sucesso vem a médio e longo prazo, e o fracasso pode vir a curtíssimo prazo - basta um escorregão estratégico para colocar tudo a perder. Aprendi também que ter idéias e mesmo conseguir capital para realizá-las não é difícil, difícil mesmo é encontrar as pessoas certas e faze-las acreditar no sonho e trabalhar juntas no mesmo sentido.
Se tivesse que começar tudo de novo:
Eu faria tudo igual.
Sobre o que é necessário para começar um negócio:
Acho que a combinação explosiva se dá quando você consegue juntar idéia + capital + RH. Nenhum destes ingredientes pode faltar ou ser mediano, inclusive um depende do outro para se viabilizar. Acho que o grande desafio para os próximos anos é a capacidade, em um mundo cada vez mais competitivo por talentos, de conseguir reunir a equipe certa em torno dos mesmos ideais.
Sobre o stress de ser empreendedor:
É estressante mas gratificante "no pain, no gain". Acho que é como pular de para-quedas: existe o risco, mas o prazer vem justamente deste risco (a propósito, nunca pulei de para-quedas, acho o risco grande demais).
Sobre quem deveria tentar (que tipo de pessoa) ser empreendedor:
Tem que ter espírito empreendedor, gostar de desafios e ser capaz de suportar os dias onde a luz no fim do túnel parece estar apagada ou mais distante que o dia anterior (a locomotiva parece ter andado para trás).
Lições de vida:
Em uma era onde as pessoas estão assoberbadas de informação, deve-se ter todo o cuidado para seguir ao pé da letra a estratégia KISS ("keep it simple, stupid!"). Seus produtos e serviços devem ser os mais simples possíveis, pois você não terá muito tempo para vende-los a seus clientes.
Sobre ter sócios:
É fundamental para o sucesso do empreendimento que a visão do negócio seja compartilhada por todos, e que todos tenham mais ou menos as mesmas expectativas, caso contrário a condução do negócio pode virar um pesadelo de vontades, interesses e planos irreconciliáveis.
Mensagem final:
Acho que o maior agradecimento vai para o meu pai, uma pessoa de visão que há 25 anos atrás viu a revolução da informática acontecendo e teve a capacidade de "empurrar" um adolescente a se interessar por ela. Sem dúvida, sem sua ajuda e visão nada disso teria acontecido comigo.
Histórico do site www.elefante.com
Nascimento
O Elefante nasceu em agosto de 97 no Rio de Janeiro - Brasil, e é o assistente pessoal on-line líder no mercado ibero-americano. O site oferece um serviço gratuito, idealizado na crença mundial de que "O Elefante nunca esquece".
O Elefante entrega conteúdo personalizado, propaganda e oportunidades de compra, via e-mail ou celular, para mais de 1 milhão de internautas. Funciona como a memória dos usuários, lembrando tudo o que não podem esquecer.
Primeiros Passos
O crescimento inicial do número de usuários (80.000 - ago 99) deveu-se à divulgação dos internautas e assessoria de imprensa. A força da marca do Elefante rosa desempenhou papel fundamental, gerando associação emocional com usuários inovadores e simpatia da imprensa.
Em setembro de 1999, o Elefante recebeu seu primeiro investimento do site Submarino, líder de comércio eletrônico ibero-americano. A base aumentou então, em dois meses, para 200.000 usuários. Logo após, em janeiro de 2.000, fechou o primeiro "round" de financiamento, com o aporte de 5 milhões de dólares do maior grupo de capital de risco americano, Warburg, Pincus & Co. em conjunto com o GP Participações, maior fundo de investimentos do Brasil.
O Futuro
Atualmente, o Elefante tem mais de 1.000.000 de usuários cadastrados ativos no Brasil, e mais de 30.000 nos países da América Latina e Espanha, incluindo a comunidade hispânica dos Estados Unidos. É líder na categoria on-line de marketing direto e e-mail marketing, apresentando resultados superiores à média para seus anunciantes. É também um dos pioneiros no desenvolvimento de soluções para internet sem fio (WAP), com parcerias importantes já firmadas e novidades a caminho.
Confira também o estudo de caso Achei.com.br - Um empreendimento de oportunidade



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